"Enquanto o Pequeno Polegar, abandonado na floresta, semeava pedrinhas para depois poder achar o caminho de volta, nem desconfiava que estava sendo seguido por uma avestruz que devorava suas pedrinhas, uma por uma.
Eis aqui a verdadeira história, foi assim que aconteceu...
O jovem Polegar se virou: cadê as pedrinhas?!
Ele estava definitivamente perdido sem pedrinhas, sem volta; sem volta, sem casa; sem casa, sem pai, nem mãe.
"E agora?", murmurou para si mesmo, entredentes.
De repente, ouviu gargalhadas, e depois o som de sinos, e um barulho de água, trombetas, uma orquestra inteira, zanguizarra de zoeira, uma música brutal, estranha, mas um pouco desagradável, e totalmente nova para ele. Colocou então a cabeça por entre os arbustos e viu uma avestruz dançando; ela olhou para ele, parou de dançar e disse:
A Avestruz: "Sou eu que estou fazendo esse barulho todo, estou tão feliz, meu estômago é magnífico, posso comer qualquer coisa. Hoje de manhã, comi dois sinos com os badalos, duas trombetas, três dúzias de xicrinhas, uma salada com a saladeira, e também comi as pedrinhas brancas que você foi largando. Monta no meu lombo, sou bem veloz, vamos viajar juntos".
"Mas", disse o jovem Polegar, "não vou mais ver o meu pai e a minha mãe?..."
A Avestruz: "Se eles te abandonaram, quer dizer que eles não querem te ver tão cedo."
O Pequeno Polegar: "Com certeza tem verdade no que a senhora está dizendo, senhora Avestruz".
A Avestruz: "Não me chame de senhora, tenha pena das minhas penas! Pode me chamar só de Avestruz."
O Pequeno Polegar: "Tudo bem, Avestruz, mas mesmo assim, tem a minha mãe, não é?
A Avestruz (irritada): "Não é o quê? Você já está me irritando, e além do mais, se você quer saber, u não morro de amores pela sua mãe, principalmente por causa daquela mania que ela tem de sempre usar chapéu com penas de avestruz...".
Polegar filho: "É que as penas custam caro... e ela gasta um dinheirão só para impressionar os vizinhos".
A Avestruz: "Em vez de impressionar os vizinhos, ela faria melhor se cuidasse de você. Ela até te dava uns tapas de vez em quando".
Polegar filho: "Meu pai também me batia".
A Avestruz: "Ah, o senhor Polegar batia em você? É inadmissível. Se os filhos não batem nos pais, por que os pais batem nos filhos?
Aliás, o senhor Polegar nem e tão esperto assim, não. Sabe o que ele disse quando viu um ovo de avestruz pela primeira vez?
Polegar filho: "Não".
A Avestruz: "Bem, ele disse: 'Daria uma linda omelete!' ".
Polegar filho (lembrando): "Lembro da primeira vez que ele viu o mar. Ele pensou um pouco e disse: ' Que piscinão, pena que não tenha nenhum trampolim'.
Todo mundo riu, mas eu fiquei com vontade de chorar, e então a minha mãe me deu um puxão de orelha e disse: 'Você não pode rir que nem todo mundo quando o seu pai faz uma piada?!' Não é culpa minha, mas eu não gosto das piadas das pessoas grandes..."
A Avestruz: "...Eu também não. Monta no seu lombo, você não vai rever os seus pais, mas vai ver todo o pais."
"Está bem", disse o Pequeno Polegar, e montou.
Num forte galope triplo, a ave e a criança partiram, deixando uma nuvenzona de poeira.
Da soleira da porta, os camponeses balançam a cabeça e dizem: "Mais um daqueles automóveis imundos!".
Mas as camponesas ouvem a avestruz repicar os sinos no galope.
"Estão ouvindo esses sinos?", disseram elas, se benzendo: "Igreja fugindo, o Diabo vem vindo".
E todos se trancam até a manhã seguinte, mas na manhã seguinte e o menino já estão bem longe.
(In. Contos para crianças impossíveis. São Paulo: Cosac Naify, 2007. pp.6-11).


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