"Uma vez nua, permaneço sentada à beira da cama. Ele se afasta e me contempla. Sob seu olhar atento, jogo a cabeça para trás e esse gesto me enche de um íntimo bem-estar. Junto os braços atrás da nuca,, tranço e destranço as pernas e cada movimento traz consigo um prazer intenso e completo como se, por fim, meus braços, meu colo, minhas pernas encontrassem uma razão de ser. Ainda que este prazer fosse a única finalidade do amor, me sentiria já bem recompensada!
Aproxima-se; minha cabeça fica à altura de seu peito, que ele me oferece sorridente, aperto contra ele meus lábios e logo encosto a testa, o rosto. Sua carne cheira a fruta, a vegetal. Num novo impulso, jogo os braços ao redor de seu torso e atraio, mais uma vez, seu peito contra a minha ace.
Abraço-o com força e ouço com todos os meus sentidos. Ouço nascer, voar e recair sua respiração; escuto a explosão que seu coração repete incansável no centro do peito e que repercute nas estranhas e se espalha em ondas pelo corpo todo, transformando cada célula num eco sonoro. Aperto-o, aperto sempre com maior afã; sinto correr o sangue em suas veias e sinto trepidar a força que se esconde inativa em seus músculos; sinto agitar-se a borbulha de um suspiro. Entre meus braços, toda uma vida física, com sua fragilidade e mistério, fervilha e se precipita. Começo a tremer.
Então ele se debruça sobre mim e rolamos enlaçados para o centro da cama. Seu corpo me cobre como uma grande onda fervente, me acaricia, me queima, me penetra, me envolve, me arrasta desfalecida. à minha garganta sobe algo assim como um soluço, e não sei por que começo a me queixar, não sei por que é doce me queixar, é doce para o meu corpo o cansaço infligido pela preciosa carga que pesa sobre minhas coxas.
Quando acordo, meu amante dorme estendido ao meu lado. A expressão de seu rosto é plácida; seu hálito é tão leve que preciso me inclinar sobre os lábios dele para senti-lo. Percebo que, presa a uma finíssima e quase imperceptível corrente, uma medalhinha se aninha na penugem castanha do peito; uma medalhinha trivial, dessas que as crianças recebem no dia da primeira comunhão. Minha carne toda se enternece diante desse detalhe pueril. Aliso uma mecha rebelde colada à sua têmpora, ergo-me sem acordá-lo. Visto-me com cuidado e vou-me embora. Saio como cheguei, tateando.
Já estou aqui fora. Abro a grade. As arvores estão imóveis e ainda não amanheceu. Subo correndo a ruela, atravesso a praça, retomo avenidas. Um perfume muito suave acompanha-me: o perfume do meu enigmático amigo. Fiquei toda impregnada do seu aroma. E é como se ele ainda caminhasse ao meu lado ou ainda me tivesse apertada em seu abraço ou tivesse desfeito sua vida em meu sangue para sempre (p. 29-31).
Não importa que meu corpo fique murcho, se conheceu o amor! Que importa que os anos passem odos iguais? Tive uma bela aventura uma vez...Com uma única lembrança se pode suportar uma longa vida de tédio. E até repetir, dia após dia, sem cansaço, os mesquinhos gestos cotidianos (p. 33).
Não veio ninguém, nada aconteceu. A amargura da decepção não dura mais do que o lapso de um segundo. Meu amor por "ele" é tão grande que está acima da dor da ausência. Basta-me saber que existe, que sente e se lembra em algum canto deste mundo... - (p. 34).
E se chegasse a esquecer, como faria então para viver?
Bem sei agora que os seres, as coisas, os dias não são suportáveis para mim, a não ser quando vistos através do estado de vida que minha paixão cria.
Meu amante é para mim mais do que um amor; é minha razão de ser, meu passado, meu agora, meu amanhã" - (p. 54).
(In. A última névoa & A amortalhada. São Paulo: Cosac Naify, 2013).




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