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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Na calma amorosa de seus braços - Roland Barthes

Abraço: o gesto do abraço amoroso parece realizar, por um instante, para o sujeito, o sonho de união total com o ser amado.
"O abraço", Klimt

Além do acasalamento (aos diabos com o Imaginário), há este outro abraço, que é um enlaçamento imóvel: estamos encantados, enfeitiçados: estamos no sono, sem dormir; estamos na volúpia infantil do adormecer: é o momento das histórias contadas, o momento da voz, que vem me hipnotizar, me siderar, é o retorno à mãe ("na calma amorosa de seus braços", diz uma poesia musicada por Duparc). Nesse incesto renovado, tudo fica então suspenso: o tempo, a lei, o interdito: nada se esgota, nada se quer: todos os desejos são abolidos porque parecem definitivamente satisfeitos.
Contudo, durante esse abraço infantil, o genital acaba irremediavelmente por surgir; ele corta a sensualidade difusa do corpo incestuoso; a lógica do desejo põe-se em marcha, o querer-possuir retorna, o adulto se justapõe à criança. Sou então dois sujeitos ao mesmo tempo: quero a maternidade e a genitalidade. (O amante poderia assim ser definido: uma criança de pau duro: assim era o jovem Eros).

Carrie & Big, em "Sex and the city", o filme

Movimento de afirmação; durante um certo tempo, na verdade acabado, perturbado, alguma coisa deu certo: fiquei saciado (todos os meus desejos abolidos pela plenitude da satisfação): a plenitude existe, e não descansarei até fazê-la voltar: através de todos os meandros da história amorosa, obstinar-me-ei a querer reencontrar, renovar a contradição - a contração - dos dois abraços.
(In: Fragmentos de um discurso amoroso. Sâo Paulo: Martins Fontes, 2010. p7-8).

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O ausente - Roland Barthes

Ausência: todo episódio de linguagem que encena a ausência do objeto amado - sejam quais forem sua causa e duração - e tende a transformar essa ausência em provação de abandono.
(...) Historicamente, o discurso da ausência é sustentado pela Mulher: a Mulher é sedentária, o Homem é caçador, viajante; a Mulher é fiel (ela espera), o homem é inconstante (ele navega, corre atrás de rabos de saia). É a mulher que dá forma à ausência, elabora-lhe a ficção, pois tem tempo para isso; ela tece e ela canta; as Fiandeiras, as Canções de fiar dizem ao mesmo tempo a imobilidade (pelo ronrom da roca) e a ausência (ao longe, ritmos de viagem, vagas marinhas, cavalgadas). Segue-se que, em todo homem que diz a ausência do outro, o feminino se declara: este homem que espera e sofre com isso é miraculosamente feminizado.Um homem não é feminizado porque é invertido, mas porque está enamorado. (Mito e utopia: a origem pertenceu, o futuro pertencerá aos sujeitos em que o feminino está presente). (...)
Nas fotos: Penélope, personagem de "Odisséia", à espera de Ulisses.

Sustento ao infinito, para o ausente, o discurso da sua ausência; situação em suma inaudita; o outro está ausente como referente, presente como alocutário (...).
Um koan budista diz: "O mestre segura a cabeça do discípulo debaixo da água, durante muito, muito tempo; pouco a pouco as bolhas começam a se rarefazer; no último momento, o mestre tira o discípulo, reanima-o: quando você desejar a verdade como desejou o ar, então saberá o que ela é".
A ausência do outro segura minha cabeça debaixo da água; pouco a pouco, sufoco, meu ar se rarefaz: é por essa asfixia que reconstituo minha "verdade" e preparo o Intratável do amor.
(In: Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 35-41)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A origem do mundo - Gustav Courbet (1866)

O quadro "A origem do mundo" foi pintado pelo francês Gustav Courbet em  1866; trata-se de um óleo sobre tela de 46x55 cm, realizado à pedido do diplomata turco otomano Khalil Bey, colecionador de imagens eróticas, que solicitou ao pintor que retratasse o nu feminino da forma mais crua que fosse possível.
Entre a origem do quadro e seus últimos proprietários, a família Lacan, há uma série de controvérsias sobre a trajetória que o quadro seguiu.
Na versão histórica mais corrente, o que se diz é que o diplomata Khalil, arruinado no jogo, tivera que vender toda a sua coleção, e que "A origem do mundo" fora junto, permanecendo escondida atrás de outro quadro de Courbet.
O dono seguinte do quadro teria sido Emile Vial, um cientista e colecionador de arte japonesa, no início do século XX.
Entre 1910 e 1913, um aristocrata e colecionador de arte húngaro, chamado François de Hatvany, adquiriu o quadro e levou para Budapeste; com a Segunda Guerra Mundial, parte de sua coleção foi roubada pelo Exército Vermelho, incluindo o polêmico quadro; quando o conflito se resolveu, o aristocrata conseguiu recuperá-lo.
A obra foi então adquirida em leilão por Sylvia Lacan, esposa do famoso psicanalista, e foi colocada na casa de campo do casal, onde era coberta por um suporte de madeira com uma pintura feita por André Masson, e somente era revelada a visitantes privilegiados; a maioria dos que se deparavam com ela ficavam horrorizados, e o procedimento foi feito para evitar maiores constrangimentos.
Esta era a pintura de Masson que encobria o quadro; parece querer retratar uma floresta no estilo oriental, mas os olhos mais atentos logo perceberão de que se trata apenas de uma releitura da obra de Courbet:
Os críticos de arte costumam dizer que o quadro de Courbet ultrapassa o realismo fotográfico; um fato curioso que reforça tal pontuação é que já se tentou reproduzir a pintura em imagem; solicitou-se que toda sorte de mulheres, de damas a prostitutas, se posicionassem da mesma forma e deixassem fotografar-se, mas o efeito conseguido nunca foi o mesmo, pois nas fotos, sempre insistia um certo ar vulgarizador, um convite ao deleite sexual, o que não acontece na pintura, que cada espectador percebe de uma forma diferente, ainda que quase sempre com horror.
Após a morte de Sylvia, no início dos anos 90, a tela foi doada ao Museu d´Orsay, em Paris, para por fim a uma querela pela disputa da herança entre os herdeiros da família Lacan; atualmente, é a segunda obra mais vista no museu, a julgar pelo tanto de repoduções e postais que são vendidos dela, ficando atrás apenas de um quadro de Renoir, "Le Moulin de la Gallette".
Resta o questionamento: por que o quadro invoca horror? Seria pela sensualidade? Creio que não, pois o sexo da mulher fora retratado de forma crua, como o primeiro dono do quadro desejava. Talvez o horror seja invocado pela pintura invocar o que no homem é vivido como ameaça, e na mulher como constatação: a castração, aquilo que está para sempre perdido, o gozo pleno, impossível. Não por acaso percebo que sempre são as ditas "mulheres fálicas" e os "homens que se dizem mais poderosos, completos e viris" os que mais se horrorizam ao contemplar o quadro; estaria este em verdade denunciando a falácia de quem se acredita um sujeito completo?
Para melhor compreender os questionamentos acerca da sexualidade que o quadro invoca, e a necessidade do feminino estar coberto por um véu, uma excelente leitura é o artigo de Maria Cristina Poli, disponível na Revista Ágora de Psicanálise:
Uma leitura do que a arte traz do Real, especialmente o quadro de Courbet, também pode ser conferida no livro no livro "As partes da maçã: visões prismáticas do real", de Maria Antonieta Jordão Borba, cujo capítulo esta disponível no Google livros:
O difícil confronto com o estatuto de sujeito castrado e com a vivência da feminilidade é um tema que merece um aprofundamento bem maior que ultrapassa em muito os limites deste breve ensaio.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Rol do cotidiano - by me

Fragmentos do dia-a-dia engrossam a minha angústia intrínseca ao estatuto de sujeito condenado pela linguagem...
Estava eu à fila para o almoço, segurando o que um dia fora um gélido bandejão de inox, e que fora substituído por uma bandeja preta com branco prato de louça, por ocasião das festividades de encerramento do ano.
Aguardava os outros se servirem da mistura arroz-feijão, cada qual com a sua idiossincrasia, como diria meu amigo Claiton. Uns erguiam uma pilha alta de arroz em meio ao mar de feijão, à moda de outros homens que um dia ergueram a famosa estátua da ilha de Manhatam; outros forravam seus pratoss com fartas colheradas de arroz e apenas finalizavam com uma quase "pitada" de feijão, bem ao centro, como se estivessem confeitando um bolo com cereja - e quisessem mais fazer do feijão alegoria do que sentir o seu gosto; outros ainda, dispunham arroz e feijão em porções meticulosamente iguais, para que se confrontassem mas não se ultrapassassem - como se quisessem brincar de Deus e pudessem recriar na floresta de seus pratos o encontro do rio Negro e do Solimões.
Depois viria a carne...
A carne, pode-se optar entre duas; em geral, a primeira é uma das grandes "pop stars" do refeitório (bife à parmegiana, frango assado, filé) e a segunda consiste em algo que poucos ousam gostar, tal como bossa-nova (tirinhas de fígado com pimentão, picadinho de carne com abóbora, dentre outras). Poder-se-ia dizer que se trata de uma atividade tão complexa quanto a de sintonizar uma rádio, salvo que aqui você não pode aumentar o volume, pois é a copeira que, com o olhar de uma alemã em Auschewitz, despeja a quantia que bem quer em nossos pratos.
Chegada a minha vez, escolhi fígado com pimentão, pois sou uma pessoa cult, e não saio por aí ouvindo, ou melhor dizendo, comendo..."qualquer-coisa".
Dali fui para a fila do suco, e é nela que se deu o grande evento...
O suco é armazenado em uma máquina, dessas em que encostamos o copo descartável e ela despeja o conteúdo, tal como as máquinas de fast-food...
Fulano cochicha para ciclano:
- Vou logo é encher dois copos, para não ter que levantar pra pegar mais quando o suco acabar!
Beltrano, que atrás deles, ouvia atento, replicou:
- Que boa idéia! Vou fazer isso também!
E o procedimento se espalhou pelo resto da fila, tal como os presentes fossem peças de dominó enfileiradas, e alguém tivesse lançado o dedo.
Diante de tal disparate, fui assaltada por diversas inquietações: mas e o meio ambiente, o plástico que demora não sei quanto tempo para degradar, e todas aquelas veias e artérias congestionadas dos corpos inertes?
Por fim minha consciência ordenou que a alma calasse, sob pena de entregá-la à loucura.
Aquilo era café pequeno, eu que ficasse feliz com as alegrias que o dia ainda me reservava...
Mas naquela tarde um jovem que ocupava o assento preferencial  fingiu dormir quando o metrô parou na estação Paraíso e uma senhora assomou à porta; e um homem não quis correr para alcançar a mulher que, exausta, deixara escorrer o troco da passagem entre os dedos - preferiu ele guardar o dinheiro no bolso, e não o fez sem que brotasse um sorriso no canto de seus lábios.
fotos de Lee Miller

Saramago - Biografia

Escrita pelo português João Marques Lopes, que atualmente desenvolve doutorado na área de Literatura brasileira da Universidade de Lisboa, esta é a mais recente biografia de Saramago que vem a público após a morte do escritor, e que teve grande destaque na Bienal do Livro ocorrida este ano em São Paulo.
Apesar da narrativa abusar de termos acadêmicos, o que não compromete a compreensão e fruição do texto, ela acrescenta poucas novidades ao que já fora amplarmente divulgado pelas mídias sobre a vida do prêmio Nobel de Literatura; foi dada demasiada ênfase ao envolvimento do escritor com questões políticas  em detrimento de suas outras facetas, como criador e mesmo como homem.
Creio que quem deseja ter um maior contato com a vida e a obra de Saramago fará melhor lendo aos "Cadernos de Lanzarote",  nos quais é o próprio escritor que narra as suas aventuras e desventuras,  acrescidas da sua aguda sensibilidade perceptória,  imensurável bagagem cultural e emotividade.
Entrementes, a biografia de João é válida para quem deseja tomar um primeiro contato com Saramago, por trazer à baila um apanhado geral sobre a vida e as obras do escritor.
A seguir, destaco alguns pontos interessantes do livro.
As origens de Saramago são humildes; seus avós maternos foram camponeses analfabetos, criadores de porcos (o avô fora injeitado quando pequeno e colocado na roda da Misericórdia). Nos vinte e um anos em que viveu com os pais, Saramago mudou-se dez vezes, pois vivia em casas de aluguel, e sempre que este aumentava, a famíla tinha que se deslocar para locais mais "acessíveis". Num desses locais, o sexto andar de um prédio velho na periferia de Lisboa,  a família tinha que roubar água; neste lugar havia apenas dois livros, que lá jaziam por terem sido abandonados por outros inquilinos:  tratava-se de um guia de conversação português-francês, e da "Toutinegra do Moinho," de Émile de Richebourg; durante muito tempo estes foram os únicos livros com os quais Saramago teve contato.
As origens humildes ficará marcada num episódio curioso envolvendo o nome do escritor. O pai, batizado como José de Sousa, fora registrar o menino em cartório, revelando ao escrevente que desejava que o filho tivesse o mesmo nome . Tudo feito, deixara o cartório e só alguns anos depois, ao acessar a certidão para matricular o menino na escola, descobriu que o escrevente adicionara arbitrariamente ao José de Sousa o sobrenome Saramago. O pai ficou arrasado, pois Saramago se tratava de um nome jocoso, que aludia a uma espécie de erva ruim, dessas que crescem espontanemente, o que denunciava como a família era denegrida entre os vizinhos da aldeia onde moravam.

Ainda que a mãe de Saramago fosse analfabeta, ela fez questão que o filho estudasse, sendo que a sua formação básica se deu numa escola de excelente qualidade, o Liceu Gil Vicente; nesta escola é que o menino terá o primeiro contato com as artes e literatura, pelas quais desenvolverá intenso interesse; certa feita, quando Saramago ficou doente e acamado, ainda menino, a mãe percorreu toda a vizinhança implorando que lhe emprestassem livros, para levá-los ao filho e assim agradá-lo, de forma a apressar seu restabelecimento.
Impossibilitado de prosseguir os estudos no Liceu por conta das dificuldades econômicas, Saramago seguiu os estudos secundários na Escola Industrial de Afonso Domingues, como serralheiro mecânico; ele jamais cursou o ensino superior.
Sua vida profissional evoluiu do ofício como serralheiro mecânico para empregos administrativos; apesar das adversidades, Saramago nunca se manteve longe dos livros, frequentando a bilbioteca assiduamente; por este hábito é que adquiriu uma incomensurável bagagem cultural e o gosto por escrever. No entanto, seu primeiro livro só seria publicado quando o escritor já contava com 53 anos. 

O encontro com Pilar del Rio

José Saramago já fora casado com Ilka Reis, com quem compartilhou trinta anos de convivência e tivera sua única filha, Violante; depois mantera um relacionamento de quase dez anos com Isabel de Nóbrega; mas foi com Pilar del Rio que, segundo ele, encontrou a verdadeira felicidade.
É Pilar que em entrevista a Juan Airas revelou como se deu o encontro. A jornalista espanhola por acaso entrou numa livraria com as amigas e encontrou um livro de Saramago, "Memorial do convento"; leu-o avidamente e lhe interessou especialmente a o destaque que Saramago conferia às mulheres na narrativa, pois Pilar sempre fora uma defensora ferrenha dos direitos femininos.
Pilar retornou à livraria e comprou outro romance, desta vez "O ano da morte de Ricardo Reis", que se tratava de uma história fictícia criada em torno de um dos heterônimos de Fernando Pessoa.
Segue trecho da biografia que narra o que se deu a partir de então. Diz Pilar:
"Acabei de ler o livro e chorar compulsivamente porque estava a terminar e perguntava-me: que vou fazer o resto da minha vida se o livro está a acabar? Então decidi ir percorrer os lugares de Lisboa que aparecem no romance e pareceu-me de justiça telefonar ao escritor para lhe agradecer o livro e a emoção que me tinha oferecido - assim Pilar define o início do contato com Saramago. Entretanto, mesmoantes de conhecê-lo pessoalmente, faria um programa de televisão sobre ele, e a visita a Lisboa aconteceria em junho de 1986. Consegue marcar um encontro com Saramago, que a leva ao túmulo de Pessoa no Cemitério dos Prazeres, a outros lugares do roteiro pessoano, e leem ambos fragmentos da obra. Daí nasceriam uma amizade e uma troca de correspondência baseadas em literatura, com ela e lhe enviar resenhas da imprensa espanhola a respeito dos livros dele e Saramago a lhe recomendar leituras de escritores portugueses. A relação epistolar começaria a evoluir para algo mais profundo quando, na quinta carta que enviava, o escritor lhe pergunta se haveria algum incoveniente em uma visita sua a Servilha. Após outras visitas, a relação sedimenta-se, e Pilar se mudará para Lisboa, onde se casará com o escritor em 29 de outubro de 1988. Ela tinha 37 anos e ele, 66" (Lopes, 2010, p114-5).
Os dois viveram juntos até a morte do escritor, ocorrida em junho deste ano. Todos os livros que Saramago escreveu depois de conhecer Pilar foram dedicados a ela.
A história de amor do casal é narrada em meio ao processo de concepção do livro "A viagem do elefante" no belíssimo filme "José e Pilar", em cartaz nos cinemas de SP.
Encerro este breve ensaio com uma citação de Saramago:
"Nada me causa mais desagrado do que ouvir um político dizer que não há que causar alarme social. A sociedade tem de estar alarmada, é a sua forma de estar viva".
Vale à pena conferir os blogs oficiais do escritor, que contêm documentos, fotos e resenhas originais:

A Maior Flor do Mundo | José Saramago

José Saramago - O pecado é um instrumento de controle

sábado, 25 de dezembro de 2010

O amor para Lacan

"O que inicia o movimento de que se trata no acesso ao outro que nos é dado pelo amor é este desejo pelo objeto amado que eu compararia, se quisesse imajá-lo, à mão que se adianta para pegar o fruto quanto maduro, para atrair a rosa que se abriu, para atiçar a chama na lenha que de súbito se inflamou (...). Mas quando, nesse movimento de pegar, de atrair, de atiçar, a mão foi longe o bastante em direção ao objeto, se do fruto, da flor, da acha sai uma mão que se estende ao  encontro da mão que é a de vocês, e neste momento é sua mão que se de~´em fixa na plenitude fechada do fruto, aberta da flor, na explosão de uma mão em chama - então, o que aí se produz é o amor".

Vitorello apud Lacan em:"Mantenha distância: o imaginário obcessivo de Nelson Rodrigues". São Paulo: Annablume, 2009.110p.
Fotos de Lee Miller. 

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma conversa sobre o amor - Jacques Alain Miller

Transcrição do que Jacques Alain-Miller chamou de "uma conversa" no Simpósio do Campo Freudiano em Buenos Aires, em 20/07/88, que foi publicada primeiramente em "Clínica Psicanalítica: desejo e gozo", do Fundo Editorial do Simpóssio do Campo Freudiano, depois em "Conferências portenhas: desde Lacan" - Jacques Alain Miller (em espanhol), e no Brasil, na revista eletrônica "Opção Lacaniana", ano I, n II, de julho de 2010.
Alain-Miller trata sobre o amor, partindo dos textos "Contribuições à Psicologia do Amor", "Sobre um tipo particular de escolha do objeto no homem", "Sobre a mais generalizada degradação da vida amorosa", e "O tabu da virgindade", todos de Sigmund Freud, e os articula ao texto "A significação do falo", de Jacques Lacan. Discorre sobre como se relacionam os homens com as mulheres e como se escolhem uns aos outros; sobre as condições de amor, e responde algumas questões:
1. A falta de amor pode ser a envoltura formal do sintoma?
2. O que quer dizer a frase de Lacan de que o amor permite aogozo condescender ao desejo?
3. Como o gozo autoerótico na histeria se engancha ao desejo do Outro?
4. A propósito do mito de Don Juan, qual a diferença entre o "uma por uma", que fornece uma série infinita, e o "todo", que aparece saturado?
5. Qual a diferença entre a perversão e a escolha homossexual do objeto?
6. O que quer dizer a frase de Lacan de que os homossexuais são curáveis?
fotos de Cartier-Bresson

Excelente texto de 32 páginas que vale a pena ler com toda a atenção.
Disponível no link:

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

É um querer mais que bem querer - Florbela Espanca

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente.
*
A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar...e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão
Foi graça no meu peito de descrente.
*
Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira.
*
E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol!
Águia real, aponta-mes a subida!

Cary Grant e Audrey Hupburn no filme Charada

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Psicanálise - Mário Quintana

Uma homenagem a uma pessoa muito interessante que conheci através deste blog, Coraline Jones:
"A Psicanálise? Uma das mais fascinantes modalidades do gênero policial, em que o detetive procura desvendar um crime que o próprio criminoso ignora."

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Entrevista com Clarice Lispector (1977)- Parte 5

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 4

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 3

Entrevista com Clarice Lispector (1977) Parte 2

Entrevista Clarice Lispector - Parte 1

Entrelinhas - Especial Freud parte 3

Entrelinhas - Especial Freud parte 2

Entrelinhas - Especial Freud parte 1

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Amor- Fernando Pessoa

Amar e saber o que é amar são coisas diferentes. Amar é um acontecimento que nunca se esquece; é inventar sentidos para a existência no mundo. Saber o que é amar é impossível, porque quem ama nunca sabe o que ama, nem porque ama, nem o que é amar.
Fernando Pessoa

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

Eu que não sei quase nada do mar - Maria Bethânia

Garimpeira da beleza
Te achei na beira de você me achar
Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar
E vem me beijando toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer
*
Eu que não sei quase nada do mar
Descobri que não sei nada de mim
*
Clara, noite rara, nos levando além da rebentação
Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
*
Me agarrei em seus cabelos
Tua boca quente pra não me afogar
Tua língua correnteza lambe minhas pernas
Como faz o mar
E vem me beijando toda, me deixando tonta de tanto prazer
Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio
Não vou esquecer

domingo, 26 de setembro de 2010

Um pouquinho do professor Freud

Estou lendo a biografia do "Pai da Psicanálise" escrita por Peter Gay; a vida do grande professor, como já era de se esperar, foi fascinante pelas obras, atos, fatos, mas essencialmente, pelo homem. São palavras de Freud:
"Quem tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, convence-se de que com os mortais não conseguem guardar segredo. Se os lábios estão mudos, eles tagarelam com a ponta dos dedos; a traição força seucaminho por todos os poros".
"Não sou absolutamente um cientista, um observador, um experimentador, um pensador. Não sou senão um conquistador por temperamento, um aventureiro, se você quiser traduzir o termo, com toda a natureza indagadora, a ousadia e a tenacidade de um tal indivíduo".

Creation - movie (2010)

Excelente filme que assisti neste sábado à noite: conta sobre a vida do homem que provocou a segunda grande ferida narcísica da humanidade, ou seja, Charles Darwin. Aqui vai o trecho final do filme:
"É da guerra da natureza, da fome e da morte, que o mais elevado objetivo que somos capazes de conceber (...) advém. Há grandeza nesta visão de vida que enquanto este planeta foi gerado de acordo com a lei da gravidade a partir de um universo muito simples, infinitas formas belas, maravilhosas, evoluíram e continuam evoluindo"
Estou à espera de que apareça uma grande tese de doutorado para ler...

domingo, 19 de setembro de 2010

Cleópatra - 1963

"Dê-me milhares e milhares de beijos
Quando tivermos muitos, vamos juntá-los
E parar de contá-los
Assim a inveja não saberá quantos são,
E não lancará seu olhar maligno"
César, recitando um poema de Catulo para Cleópatra


"O mundo, exceto por você, está cheio de homens medíocres"
Cleópatra para César


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

War & Peace - 1956 (trecho final)

É muito difícil, embora seja essencial, amar a vida, amá-la mesmo quando estamos sofrendo, porque a vida é tudo. A vida é Deus, e amar a vida é como amar Deus"
Tolstoy
Pierre & Natasha

domingo, 12 de setembro de 2010

War & Peace - 1956 (trecho)

"Eu quero descobrir...tudo!
Quero descobrir por que eu sei o que é certo e, mesmo assim, faço o errado.
Quero descobrir o que é a felicidade e qual é o valor do sofrimento.
Quero descobrir por que os homens vão à guerra e o que dizem em seus corações quando rezam.
Quero descobrir o que os homens e mulheres sentem quando se apaixonam.
Acho que isso é o bastante para me manter ocupado! (...)
Você é diferente, quando estuda, fica esclarecido.
Quando eu estudo, fico mais confuso!".

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Saudade - Pixinguinha

Imagem: The Mansfield `Park - movie

Saudade de tu, meu desejo
Saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Teu abraço gostoso
De passear no teu céu
É tão difícil ficar sem você
O te amor é gostoso demais
Teu cheiro me dá prazer
Quando estou com você
Estou nos braços da paz
Pensamento viaja
E vai buscar meu bem querer
Não posso ser feliz assim
Tem dó de mim
 O que eu posso fazer?

Imagem: Orgulho & Preconceito - movie

sábado, 4 de setembro de 2010

"Devo ater-me a meu próprio estilo e seguir meu próprio caminho. E apesar de eu poder nunca mais ter sucesso deste modo, estou convencida de que falharia totalmente de qualquer outro"
Jane Austen 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Poema do menino jesus - Fernando Pessoa (trecho)

Ele dorme dentro da minha alma. Ás vezes ele acorda de noite , brinca com meus sonhos. Vira uns de perna pro ar, põe uns por cima dos outros, e bate palmas, sorrindo, sorrindo para os meus sonhos.
(....)
Pega-me Tu ao colo, leva-me para dentro a Tua casa.
Deita-me a Tua cama. Despe o meu ser, cansado e humano. Conta-me histórias caso eu acorde para eu tornar a adormecer, e dá-me sonhos teus para eu brincar.

Alberto Caiero
Imagens: Desejo & Reparação - filme

domingo, 29 de agosto de 2010

Soneto XVI - Shakespeare

Quando vejo que tudo quanto cresce
Só é perfeito por um breve instante
E que o palco dos homens se oferece
Aos desígnios dos astros mais distantes

Quando ao céu que ora aplaude
Ora castiga, homem e planta em pleno crescimento
Vêem findar-se a seiva e ainda nova glória
Que tinham cai no esquecimento

A luz de tão instável permanência
Aos meus olhos mais moças te anuncias
Embora juntos tempo e decadência
Queiram transformar-te em noite o claro dia

Então por teu amor o tempo enfrento
E o quanto ele te rouba eu te acrescento.




domingo, 22 de agosto de 2010

A Psicanálise ensina alguma coisa sobre o amor?

Entrevista com Jacques Alain-Miller para Hannah Waar, da Revista Psichologies Magazine em outubro de 2008.

Cléopatra & Marco Antônio

 
Jacques-Alain Miller: Muito, pois é uma experiência cuja fonte é o amor. Trata-se desse amor automático, e freqüentemente inconsciente, que o analisando dirige ao analista e que se chama transferência. É um amor fictício, mas é do mesmo estofo que o amor verdadeiro. Ele atualiza sua mecânica: o amor se dirige àquele que a senhora pensa que conhece sua verdade verdadeira. Porém, o amor permite imaginar que essa verdade será amável, agradável, enquanto ela é, de fato, difícil de suportar.
P.: Então, o que é amar verdadeiramente?
J-A Miller: Amar verdadeiramente alguém é acreditar que, ao amá-lo, se alcançará a uma verdade sobre si. Ama-se aquele ou aquela que conserva a resposta, ou uma resposta, à nossa questão "Quem sou eu?".
P.: Por que alguns sabem amar e outros não?
J-A Miller: Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers - se posso dizer - homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro, que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos, ou querem ser, não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias.
Gala & Dali

P.: "Ser completo sozinho”: só um homem pode acreditar nisso...
J-A Miller: Acertou! "Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem". O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua "castração", como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.

Frida Kahlo & Diego

P.: Amar seria mais difícil para os homens?
J-A Miller: Ah, sim! Mesmo um homem enamorado tem retornos de orgulho, assaltos de agressividade contra o objeto de seu amor, porque esse amor o coloca na posição de incompletude, de dependência. É por isso que pode desejar as mulheres que não ama, a fim de reencontrar a posição viril que coloca em suspensão quando ama. Esse princípio Freud denominou a "degradação da vida amorosa" no homem: a cisão do amor e do desejo sexual.

Oona & Chaplin

P.: E nas mulheres?
J-A Miller: É menos habitual. No caso mais freqüente há desdobramento do parceiro masculino. De um lado, está o amante que as faz gozar e que elas desejam, porém, há também o homem do amor, feminizado, funcionalmente castrado. Entretanto, não é a anatomia que comanda: existem as mulheres que adotam uma posição masculina. E cada vez mais. Um homem para o amor, em casa; e homens para o gozo, encontrados na Internet, na rua, no trem...
Jacqueline & Picasso

P.: Por que "cada vez mais"?
J-A Miller: Os estereótipos socioculturais da feminilidade e da virilidade estão em plena mutação. Os homens são convidados a acolher suas emoções, a amar, a se feminizar; as mulheres, elas, conhecem ao contrário um certo “empuxo-ao-homem”: em nome da igualdade jurídica são conduzidas a repetir “eu também”. Ao mesmo tempo, os homossexuais reivindicam os direitos e os símbolos dos héteros, como casamento e filiação. Donde uma grande instabilidade dos papéis, uma fluidez generalizada do teatro do amor, que contrasta com a fixidez de antigamente. O amor se torna “líquido”, constata o sociólogo Zygmunt Bauman (1). Cada um é levado a inventar seu próprio “estilo de vida” e a assumir seu modo de gozar e de amar. Os cenários tradicionais caem em lento desuso. A pressão social para neles se conformar não desapareceu, mas está em baixa.
Sylvia Plath e Ted

P.: “O amor é sempre recíproco”, dizia Lacan. Isso ainda é verdade no contexto atual? O que significa?
J-A Miller: Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo-a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: “Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças”. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação.
P.: Não se encontra seu ‘cada um’, sua ‘cada uma’ por acaso. Por que ele? Por que ela?
J-A Miller: Existe o que Freud chamou de Liebesbedingung, a condição do amor, a causa do desejo. É um traço particular – ou um conjunto de traços – que tem para cada um função determinante na escolha amorosa. Isto escapa totalmente às neurociências, porque é próprio de cada um, tem a ver com sua história singular e íntima. Traços às vezes ínfimos estão em jogo. Freud, por exemplo, assinalou como causa do desejo em um de seus pacientes um brilho de luz no nariz de uma mulher!
Hilda Furacão

P.: É difícil acreditar em um amor fundado nesses elementos sem valor, nessas baboseiras?
J-A Miller: A realidade do inconsciente ultrapassa a ficção. A senhora não tem idéia de tudo o que está fundado, na vida humana, e especialmente no amor, em bagatelas, em cabeças de alfinete, os “divinos detalhes”. É verdade que, sobretudo no macho, se encontram tais causas do desejo, que são como fetiches cuja presença é indispensável para desencadear o processo amoroso. As particularidades miúdas, que relembram o pai, a mãe, o irmão, a irmã, tal personagem da infância, também têm seu papel na escolha amorosa das mulheres. Porém, a forma feminina do amor é, de preferência, mais erotômana que fetichista : elas querem ser amadas, e o interesse, o amor que alguém lhes manifesta, ou que elas supõem no outro, é sempre uma condição sine qua non para desencadear seu amor, ou, pelo menos, seu consentimento. O fenômeno é a base da corte masculina.
P.: O senhor atribui algum papel às fantasias?
J-A Miller: Nas mulheres, quer sejam conscientes ou inconscientes, são mais determinantes para a posição de gozo do que para a escolha amorosa. E é o inverso para os homens. Por exemplo, acontece de uma mulher só conseguir obter o gozo – o orgasmo, digamos – com a condição de se imaginar, durante o próprio ato, sendo batida, violada, ou de ser uma outra mulher, ou ainda de estar ausente, em outro lugar.
P.: E a fantasia masculina?
J-A Miller: Está bem evidente no amor à primeira vista. O exemplo clássico, comentado por Lacan, é, no romance de Goethe (2), a súbita paixão do jovem Werther por Charlotte, no momento em que a vê pela primeira vez, alimentando ao numeroso grupo de crianças que a rodeiam. Há aqui a qualidade maternal da mulher que desencadeia o amor. Outro exemplo, retirado de minha prática, é este: um patrão qüinquagenário recebe candidatas a um posto de secretária. Uma jovem mulher de 20 anos se apresenta; ele lhe declara de imediato seu fogo. Pergunta-se o que o tomou, entra em análise. Lá, descobre o desencadeante: ele havia nela reencontrado os traços que evocavam o que ele próprio era quando tinha 20 anos, quando se apresentou ao seu primeiro emprego. Ele estava, de alguma forma, caído de amores por ele mesmo. Reencontra-se nesses dois exemplos, as duas vertentes distinguidas por Freud: ama-se ou a pessoa que protege, aqui a mãe, ou a uma imagem narcísica de si mesmo.
P.: Tem-se a impressão de que somos marionetes!
J-A Miller: Não, entre tal homem e tal mulher, nada está escrito por antecipação, não há bússola, nem proporção pré-estabelecida. Seu encontro não é programado como o do espermatozóide e do óvulo; nada a ver também com os genes. Os homens e as mulheres falam, vivem num mundo de discurso, e isso é determinante. As modalidades do amor são ultra-sensíveis à cultura ambiente. Cada civilização se distingue pela maneira como estrutura a relação entre os sexos. Ora, acontece que no Ocidente, em nossas sociedades ao mesmo tempo liberais, mercadológicas e jurídicas, o “múltiplo” está passando a destronar o “um”. O modelo ideal do “grande amor de toda a vida” cede, pouco a pouco, terreno para o speed dating, o speed loving e toda floração de cenários amorosos alternativos, sucessivos, inclusive simultâneos.

Lou Andreas Salomé & Nietzsche

P.: E o amor no tempo, em sua duração? Na eternidade?
J-A Miller: Dizia Balzac: “Toda paixão que não se acredita eterna é repugnante” (3). Entretanto, pode o laço se manter por toda a vida no registro da paixão? Quanto mais um homem se consagra a uma só mulher, mais ela tende a ter para ele uma significação maternal: quanto mais sublime e intocada, mais amada. São os homossexuais casados que melhor desenvolvem esse culto à mulher: Aragão canta seu amor por Elsa; assim que ela morre, bom dia rapazes! E quando uma mulher se agarra a um só homem, ela o castra. Portanto, o caminho é estreito. O melhor caminho do amor conjugal é a amizade, dizia, de fato, Aristóteles.

P.: O problema é que os homens dizem não compreender o que querem as mulheres; e as mulheres, o que os homens esperam delas...
J-A Miller: Sim. O que faz objeção à solução aristotélica é que o diálogo de um sexo ao outro é impossível, suspirava Lacan. Os amantes estão, de fato, condenados a aprender indefinidamente a língua do outro, tateando, buscando as chaves, sempre revogáveis. O amor é um labirinto de mal entendidos onde a saída não existe.
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Scarlet & Rhett

(1) Zygmunt Bauman, L’amour liquide, de la fragilité des liens entre les hommes (Hachette Littératures, « Pluriel », 2008)
(2) Les souffrances du jeune Werther de Goethe (LGF, « le livre de poche », 2008).
(3) Honoré de Balzac in La comédie humaine, vol. VI, « Études de mœurs : scènes de la vie parisienne » (Gallimard, 1978).
Tradução de Maria do Carmo Dias Batista.