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segunda-feira, 28 de março de 2011

Luxúria de estar vivo - Clarice Lispector


"A luxúria de estar vivo me espantava, na minha insônia sem eu entender que a noite do mundo e a noite do viver são tão doces que até se dorme. Que até se dorme, meu Deus".
(In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, 1984).

Quando chorar - Clarice Lispector


"...nem sempre é necessário tornar-se forte. Temos que respeitar a nossa fraqueza. Então, são lágrimas suaves, de uma tristeza legítima à qual temos direito. Elas correm devagar e quando passam pelos lábios sente-se aquele gosto salgado, límpido, produto de nossa dor mais profunda.
Homem chorar comove. Ele, o lutador, reconheceu sua luta às vezes inútil. Respeito muito o homem que chora. Eu já vi homem chorar".
(In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p.50)
Quadros de Edward Munch

sábado, 26 de março de 2011

Igual a tudo na vida - Woody Allen

"Há uma velha piada sobre um campeão que entra no ringue.
Ele está sendo massacrado, levando uma sova. Sua mãe está na platéia. Ela o está vendo apanhar no ringue.
Tem um sacerdote ao lado dela e ela lhe diz:
- Padre, padre, reze por ele, reze por ele.
O sacerdote diz:
- Rezarei por ele, mas ajudaria se ele socasse".
"Ao longo da vida, haverá um monte de gente lhe dizendo como viver.
Terão todas as respostas para você. O que deve ou não fazer.
Não discuta com elas. Só diga:
- Sim, é uma idéia brilhante...
E daí, faça o que quiser. E sempre que escrever, tente ser original, mas se tiver que roubar, roube dos melhores".
"- O que disse?
- Só estava dizendo como a vida é estranha. Como é cheia de mistérios inexplicáveis.
- Bom, sabe como é. É igual a tudo na vida.". 

sexta-feira, 25 de março de 2011

Água viva - Clarice Lispector

"A harmonia secreta da desarmonia: quero não o que está feito mas o que tottuosamente ainda se faz. Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio".
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"O dia parece a pele esticada e lisa de uma fruta que numa pequena catástrofe os dentes rompem, o seu caldo escorre. Tenho medo do domingo maldito que me liquidifica".
*
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada".
*
"O que mais me emociona é que o que não vejo contudo existe. Porque então tenho aos meus pés todo um mundo desconhecido que existe pleno e cheio de rica saliva. A verdade está em alguma parte: mas inútil pensar. Não a descobrirei e no entanto vivo dela".
*
"Criar a si próprio um ser é muito grave. Estou me criando. E andar na escuridão completa à procura de nós mesmos é o que fazemos. Dói. Mas é dor de parto: nasce uma coisa que é. É-se. É duro como uma pedra viva".
*
"De novo estou de amor alegre. O que és eu respiro depressa sorvendo o teu halo de maravilha antes que se finde no evaporado o ar. Minha fresca vontade de viver-me e de viver-te é a tessitura mesma da vida? A natureza dos seres e das coisas - é Deus? Talvez então se eu pedir muito à natureza, eu paro de morrer? Posso violentar a morte e abrir-lhe uma fresta para a vida?"
*
"Ao amanhecer eu penso que nós somos os contemporâneos do dia seguinte: que o Deus me ajude. Estou perdida.  Preciso terrivelmente de você. Nós temos que ser dois. Para que o trigo fique alto.".
Livro disponível para download:


segunda-feira, 21 de março de 2011

Diálogos do impossível - Lispector & Lacan

" Não gosto é quando pingam limão nas minhas profundezas e fazem com que eu me contorça toda. Os fatos são o limão na ostra? Será que a ostra dorme?".
(In: Água viva. São Paulo: Círculo do livro, 1973).
*
"Mas, quem teria a crueldade de interrogar aquele que se verga sob o fardo da bagagem, quando seu porte leva claramente a supor que ela está cheia de tijolos? No entanto, o ser é o ser, seja quem for que o invoque, e temos o direito de perguntar o que ele vem fazer aqui."
(A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998 [1966]. p.593)

sábado, 19 de março de 2011

Frankie & Johnny

"Estou assustado. Tenho medo que fuja para esse lugar onde vive se escondendo e ninguém a encontra. É por isso que sou tão insistente".

"- Por que já pensou em se matar?
- Penso em me matar quando acho que sou a única pessoa no mundo inteiro. E essa parte de mim se sente presa a este corpo que apenas tropeça em outros corpos, sem nunca ter contato com a unica outra pessoa no mundo dentro dele. Precisamos de contato. Apenas temos que."
"Estou cansada. Estou tão cansada de ter medo".
*
"Acho que já éramos um casal antes mesmo de nos conhecermos"

Foucault fala de Lacan

"Ser psicanalista para Lacan supunha um ruptura violenta com tudo o que tendia a fazer depender a Psicanálise da Psiquiatria, ou fazer dela um capítulo sofisticado da Psicologia. Ele queria subtrair a Psicanálise da proximidade da Medicina e das instituições médicas, que considerava perigosas. Ele buscava na Psicanálise não um processo de normatização dos comportamentos, mas uma teoria do sujeito".
(In:  Entrevista de Foucault ao jornal Corriere della Sera, em 11/09/81, após a morte de Lacan)

A dimensão da interpretação - Lacan

"Mas a idéia de que a superfície seja o nível do superficial é perigosa em si mesma.
Outra topologia é necessária para não haver engano quanto ao lugar do desejo.
Apagar o desejo do mapa, quando ele já está recoberto na paisagem do paciente, não é o melhor seguimento a dar à lição de Freud.
Nem o meio de acabar com profundidade, pois é na superfície que ela é visível como herpes em dia de festa a florescer no rosto".
(A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998 [1966], p.608).

quinta-feira, 17 de março de 2011

Revista Cult » Estética e descentramento do sujeito

Lacan & Dali
Quando jovem, Lacan freqüenta os surrealistas e chega a ser médico pessoal de Picasso. Sua tese de doutorado traz um diálogo com idéias de Salvador Dali, e obtém maior reconhecimento no meio artístico do que no psiquiátrico e psicanalítico de então. A historiadora e psicanalista Elisabeth Roudinesco, biógrafa de Lacan, chega a afirmar que ele teria sido influenciado em igual medida pelo freudismo, pela psiquiatria e pelo Surrealismo.


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Revista Cult » Estética e descentramento do sujeito

quarta-feira, 16 de março de 2011

Amor imorredouro - Clarice Lispector

Fugit Amor - Rodin
"E sem mais nem menos perguntei: "o que mais interessa às pessoas? Às mulheres, digamos". Antes que ele pudesse responder, ouvimos do fundo da enorme sala a minha amiga respondendo em voz alta e simples: "O homem". Rimos, mas a resposta é séria. É com um pouco de pudor que sou obrigada a reconhecer que o que mais interessa à mulher é o homem.
Mas que isso não nos pareça humilhante, como se exigissem que em primeiro lugar tivéssemos interesses mais universais. Não nos humilhemos, porque se perguntarmos ao maior técnico do mundo em engenharia eletrônica o que é que mais interessa ao homem, a resposta íntima, imediata e franca será: a mulher. E de vez em quando é bom lembrarmo-nos dessa verdade óbivia, por mais encabulante que seja. Hão de perguntar: "mas em matéria de gente, não são os filhos o que mais nos interessa?". Isto é diferente. Filhos são, como se diz, a nossa carne e o nosso sangue, e nem se chama de interesse. É outra coisa. É tão outra coisa que qualquer criança do mundo é como se fosse nosa carne e nosso sangue. Não, não estou fazendo literatura. Um dia desses me contaram sobre uma menina semiparalítica que precisou se vingar quebrando um jarro. E o sangue me doeu todo. Ela era uma filha colérica.
O homem. Como o homem é simpático. Ainda bem. O homem é a nossa fonte de inspiração? É. O homem é o nosso desafio? É. O homem é o nosso inimigo? É. O homem é o nosso rival estimulante? É. O homem é o nosso igual, ao mesmo tempo inteiramente diferente? É. O homem é bonito? É. O homem é engraçado? É. O homem é um menino? É. O homem também é um pai? É. Nós brigamos com o homem? Brigamos. Nós não podemos passar sem o homem com quem brigamos? Não. Nós somos interessantes porque o homem gosta de mulher interessante? Somos. O homem é a pessoa com quem temos o diálogo mais importante? É. O homem é um chato? Também. Nós gostamos de ser chateadas pelo homem? Gostamos.
Poderia continuar com esta lista interminável (...). Mas acho que ninguém mais me mandaria parar. Pois penso que toquei num ponto nevrálgico. E, sendo um ponto nevrálgico, como o homem nos dói. E como a mulher dói ao homem.
(In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p.20-2).
 

terça-feira, 15 de março de 2011

Vita Brevis - Jostein Gaarder

"Sou humano e nada do que é humano me é alheio".
*
"Não devemos tentar viver com algo diferente do que somos. Isso não seria arremedar Deus?".
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"Talvez exista um Deus que nos conheça. Se assim for, tenho certeza de que ele guardou toda a generosidade que demos um ao outro. E se ele não existe, minha alma irmã, então não pode haver em todo universo nignuém que conheça o outro melhor do que tu e eu. Pois deste-me corpo e alma, assim como entreguei-me de corpo e alma para ti. Onde estavas, eu estava, e onde eu estava, aí querias estar".
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"A vida é tão curta que não temos tempo de proferir nenhum julgamento condenatório sobre o amor".
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"Quem deseja muito, muita falta sente".
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"Uma coisa é levantar-se logo após a queda, outra coisa é não cair nunca".
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"Aperta-me. A vida é tão curta e não podemos ter certeza de que exista alguma eternidade para nossas almas frágeis. Talvez esta seja a nossa única vida".

Quincas Borba - Machado de Assis

"Quem conhece o solo e o subsolo da vida, sabe muito bem que um trecho de muro, um banco, um tapete, um guarda-chuva, são ricos de idéias ou de sentimentos, quando nós também o somos, e que as reflexões de parceria entre os homens e as coisas compõem um dos mais interessantes fenômenos da Terra".
*
"O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado".
*
"Para as rosas, escreveu alguém, o jardineiro é eterno".
*
"O rumor das vozes e dos veículos acordou um mendigo que dormdia nos degraus da igreja. O pobre diabo sentou-se, viu o que era, depois tornou a deitar-se, mas acordado, de barriga para o ar, com os olhos fitos no céu. O céu fitava-o também, impassível como ele, mas sem as rugas do mendigo, nem os sapatos rotos, nem os andrajos, um céu claro, estrelado, sossegado, olímpico, tal qual presidiu às bodas de Jacob e ao suicídio de Lucrécia. Olhavam-se numa espécie de jogo do siso, com certo ar de majestades rivais e tranquilas, sem arrogância nem baixeza, como se o mendigo dissesse ao cèu:
- Afinal, não me hás de cair em cima.
E o céu:
- Nem tu me hás de escalar!"
 

segunda-feira, 14 de março de 2011

Sidarta - Hermann Hesse

"Não se pode receber prazer sem dar prazer; cada gesto, cada carícia, cada aspecto, cada parte do corpo esconde em si um segredo, cuja descoberta causará delícia a quem a fizer".
*
"Os amantes não devem separar-se após a festa do amor, sem que um parceiro sinta admiração pelo outro; sem que ambos sejam vencedores tanto quanto vencidos, de maneira que em nenhum dos dois possa surgir a sensação de enfado ou de vazio e ainda menos a impressão desagradável de terem-se maltratado mutuamente".
*
"Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la".
*
"O amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas, com amor, admiração e reverência".
*
"Que o meu olhar nunca cese de agradar-te, para que minha sorte sempre venha de ti".
Hermann Hesse em Montagnola

domingo, 13 de março de 2011

A noite dissolve os homens - Carlos Drummond de Andrade

À Portinari
Criança morta - Portinari (Acervo MASP)
A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo os meus irmãos.
E nem tampouco os rumores
que outrora me perturbavam.
A noite desceu. Nas casas,
nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos,
a noite espalhou o medo
e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda,
sem esperança... Os suspiros
acusam a presença negra
que paralisa os guerreiros.
E o amor não abre caminho
na noite. A noite é mortal,
completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens,
dizque é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias,
apagou os almirantes
cintilantes! nas suas fardas.
A noite anoiteceu tudo...
O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.
Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida, inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda não modelaram
mas que avançam na escuridão
como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um ódio suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas de antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário,
para colorir tuas pálidas faces,
aurora.

Retirantes - Portinari (Acervo MASP)

Soneto XI - Pablo Neruda

Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.

Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado de tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas.

E faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente,
como um puma na solidão de Quitratue.
Imagens: "Caos Calmo" - filme

sábado, 12 de março de 2011

A direção do tratamento e os princípios do seu poder - Lacan

"Para onde vai, portanto, a direção do tratamento? Talvez baste interrogar seus meios para definí-la em sua retidão.
Observe-se:
1. Que a fala tem aqui todos os poderes, os poderes especiais do tratamento;
2. Que estamos muito longe, pela regra, de dirigir o sujeito para a fala plena ou para o discurso coerente, mas que o deixamos livre para se experimentar nisso;
3. Que essa liberdade é o que ele tem mais dificuldade de tolerar;
4. Que a demanda é propriamente aquilo que se coloca entre parêntesis na análise, estando excluída a hipótese de que o analista satisfaça a qualquer uma;
5. Que, não sendo colocado nenhum obstáculo à declaração do desejo, é para lá que o sujeito é dirigido e até canalizado;
6. Que a resistência a essa declaração, em última instância, não pode ater-se aqui a nada além da incompatibilidade do desejo com a fala".
(In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998 [1966]. p.647).