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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dedução - Vladimir Mayakovsky

Não acabarão com o amor,
Nem as rusgas,
Nem a distância.
Está provado,
Pensado,
Verificado.
Aqui levanto solene
Minha estrofe de mil dedos
E faço o juramento:
Amo firme,
Fiel,
E verdadeiramente.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O livro de cabeceira - filme

"Escrever é uma ocupação muito comum. Todavia é uma ocupação muito preciosa. Se a escrita não existisse de que depressão terrível nos sofreríamos".
*
"Trate-me como a página de um livro".
*
"Tenho certeza de que há duas coisas na vida que são dignas de confiança. Os prazeres da carne e os prazeres da literatura. Eu tive a grande sorte de desfrutar dessas duas coisas da mesma forma"
*
"A única verdadeira posse de um ser humano é o amor que ele possui (...) a única coisa que levamos da vida é o que nós sentimos"

O amor - Vladimir Mayakovsky

Filme Les Amants
Um dia, quem sabe,
ela que também gostava de bichos,
apareça numa alameda de zoo,
sorridente,
tal como agora está no retrato sobre a mesa.
Ela é tão bela, que por certo, hão de ressucitá-la,
Vosso Trigésimo século ultrapassará o exame de mil nadas,
que dilaceravam o coração.
Então, de todo amor não terminado,
seremos pagos em enumeráveis noites de estrelas.
Ressucita-me,
nem que seja porque te esperava,
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!
Ressucita-me,
nem que seja só por isso!
Ressucita-me!
Quero viver até o fim que me cabe!
Para que o amor não seja mais escravo de casamentos,
 concupiscência,
salários.
Para que, maldizendo os coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.
Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.
E que ao primeiro apelo:
- Camaradas!
Atenta se volte a Terra inteira.
Para viver
livre dos nichos das casas.
Para que doravante
a família seja
o pai,
pelo menos o universo,
a mãe,
pelo menos a terra. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Deus está morto, mas Ele não sabe - Slavoj Zizek

"Pois a verdadeira fórmula do ateísmo não é que Deus está morto - mesmo fundando a origem da função do pai em seu assassínio, Freud protege o pai - a verdadeira fórmula do ateísmo é que Deus é inconsciente" - Lacan
O ateu moderno pensa saber que Deus está morto; o que ele não sabe é que, inconscientemente, continua a acreditar em Deus. O que caracteriza a modernidade nãoé mais a figura típica do crente que abriga dúvidas sobre sua crença e se entrega a fantasias transgressivas; hoje temos, ao contrário, um sujeito que se apresenta como um hedonista tolerante dedicado à busca da felicidade, e cujo inconsciente é o local de proibições: o que é recalcado não são desejos ou prazeres ilícitos, mas as próprias proibições.
Um dos tópicos característicos da crítica cultural conservadora é que, em nossa era permissiva, faltam às crianças limites firmes ou proibições. Essa falta as frusta, impelindo-as de um excesso para outro. Somente um limite firme fixado por alguma autoridade simbólica pode garantir estabilidade e satisfação - satisfação produzida através da violação da proibição, da transgressão do limite (...).
Tradicionalmente, esperava-se que a psicanálise permitisse ao paciente superar os obstáculos que o privavam de seu acesso à satisfação sexual normal: se você não consegue isso, vá ao analista que lhe permitirá ficar livre de suas inibições. Hoje, no entanto, somos bombardeados de todos os lados por diferntes versões da injunção "Goze!", desde o gozo direto no desempenho sexual ao gozo na realização profissional ou no despertar espiritual. O gozo funciona hoje efetivamente como um estranho dever ético: indivíduos sentem-se culpados não por violar inibições morais entregando-se a prazeres ilícitos, mas por não serem capazes de gozar. Nessa situação, a psicanálise é o único discurso em que você tem permissão para não gozar - você não é proibido de gozar, apenas é libertado da pressão para fazê-lo.

(In: Como ler Lacan. Slavoj Sizek. Rio de Janeiro: Zahar, p.113-128)

Ao coração que sofre - Castro Alves

Ao coração que sofre, separado
Do teu, no exílio em que a chorar me vejo
Não basta o afeto simples e sagrado
Com que das desventuras me protejo.

Não me basta saber que sou amado
Nem só desejo o teu amor: desejo
Ter nos braços teu corpo delicado,
Ter na boca a doçura de teu beijo.

E as justas ambições que me consomem
Não me envergonham: pois maior baixeza
Não há que a Terra pelo céu trocar

E mais eleva o coração de um homem
Ser de homem sempre e, na maior pureza
Ficar na Terra e humanamente amar.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Eu gosto do seu corpo - E.E Cummings


Eu gosto do seu corpo
Eu gosto do que ele faz
Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo
Dos seus ossos
E de sentir o tremor firme e doce
De quando lhe beijo
E volto a beijar
E volto a beijar
E volto a beijar.

Chamar a si todo o céu com um sorriso - E.E Cummings

Que o meu coração esteja sempre aberto às pequenas
Aves que são os segredos da vida
O que quer que cantem é melhor do que conhecer
E se os homens não as ouvem estão velhos

Que o meu pensamento caminhe pelo faminto
E destemido e sedento e servil
E mesmo que seja domingo que eu me engane
Pois sempre que os homens têm razão não são jovens

E que eu não faça nada de útil
E te ame muito mais do que verdadeiramente
Nunca houve alguém tão louco que não conseguisse
Chamar a si todo o céu com um sorriso

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Vive, Dizes - Alberto Caeiro

Vive, dizes, só no presente:
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente,quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas como cousas.
Não quero separá-las de si próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar,
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, sem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O que é a angústia? Clarice Lispector

O que é a angústia? Na verdade minha tendência a indagar e a significar já é em si uma angústia. Esta começa com a vida. Cortam o cordão umbilical: dor e separação. E enfim choro de viver.
O grito - Munch
Um rapaz fez-me essa pergunta difícil de ser respondida, pois depende do angustiado. Para alguns incautos, inclusive, é palavra de que se orgulham de pronunciar como se com ela subissem de categoria - o que é também uma forma de angústia.
Angústia pode ser não ter esperança na esperança. Ou conformar-se sem se resignar. Ou não e confessar nem a si próprio. Ou não ser o que realmente se é, e nunca se é. Angústia pode ser o desamparo de estar vivo. Pode ser também não ter coragem suficiente de ter angústia - e a fuga é outra angústia. Mas angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.
Esse mesmo rapaz perguntou-me: você não acha que há um vazio sinistro em tudo? Há sim. Enquanto se espera que o coração entenda.

(In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984- p.626-693)

domingo, 30 de janeiro de 2011

Viver - Clarice Lispector

"Viver é uma espécie de loucura que a morte faz. Vivam os mortos porque neles vivemos.
De repente as coisas não precisam mais fazer sentido (...). Satisfaço-me em ser.
Redondo sem início e sem fim, eu sou o ponto antes do zero e do ponto final. Do zero ao infinito vou caminhando sem parar. Mas ao mesmo tempo tudo é tão fugaz. O dia corre lá fora à toa e há abismos de silêncio em mim. A sombra de minha alma é o corpo. O corpo é a sombra de minha alma (...).
Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam (...).
Nunca a vida foi tão atual como hoje: por um triz é o futuro.
Tempo para mim significa a desagregação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a esse fruto toda a sua polpa. O tempo não existe.
O que chamamos de tempo é o movimento de evolução das coisas, mas o tempo em si não existe. Ou existe mutável e nele nos transladamos. O tempo passa depressa demais e a vida é tão curta. Então - para que eu não seja engolido pela voracidade das horas e pelas novidades que fazem o tempo passar depressa - eu cultivo um certo tédio. Degusto assim cada detestável minuto. E cultivo também o vazio silêncio da eternidade da espécie. Quero viver muitos minutos num só minuto. Quero me multiplicar para poder abranger até áreas desérticas que dão a idéia da imobilidade eterna.
Na eternidade não existe o tempo. Noite e dia são contrários porque são o tempo e o tempo não se divide. De agora em diante o tempo vai ser sempre atual. Hoje é hoje. Espanto-me ao mesmo tempo desconfiado por tanto me ser dado. E amanhã eu vou ter de novo um hoje (...). Mas há o hábito e o hábito anestesia. O aguilhão da abelha do dia florescendo de hoje. Graças a Deus, tenho o que comer. O pão nosso de cada dia".
(In: Um sopro de vida)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O sujeito interpassivo - Slavoj Zizek

É lugar-comum enfatizar como, com os novos meios eletrônicos, o consumo passivo de um texto ou obra de arte está ultrapassado: não mais apenas contemplo a tela, interajo com ela cada vez mais, entrando numa relação dialógica com ela (escolhendo os programas, participando de debates numa comunidade virtual, ou mesmo determinando diretamente o desfecho da trama nas chamadas "narrativas interativas").
(...) O outro lado dessa interatividade é a interpassividade. A contraparte da interação com o objeto (em vez do acompanhamento passivo do espetáculo) é a situação em que o próprio objeto tira de mim minha passividade, priva-me dela, de tal modo que é o objeto que aprecia o espetáculo em vez de mim, poupando-me da obrigação de me divertir. (...) Parece que, hoje, até a pornografia funciona cada vez mais de um modo interpassivo: filmes pornográficos não são mais fundamentalmente o meio para excitar o usuário para sua atividade masturbatória solitária - contemplar a tela em que a "ação ocorre" é suficiente, basta-me observar como os outros gozam em meu lugar. (...)
A interpassividade é o oposto da noção de Hegel de List der Vernunft (astúcia da Razão), em que sou ativo através do Outro: posso permanecer passivo, sentado confortavelmente em segundo plano, enquanto o Outro age por mim. Em vez de bater no metal com um martelo, a máquina pode fazer isso por mim; em vez de girar eu mesmo a roda do moinho, a água pode fazer isso: atinjo meu objetivo interpondo entre mim e o objeto sobre o qual trabalho um outro objeto natural. O mesmo pode acontecer no nível interpessoal: em vez de atacar diretamente o meu inimigo, instigo uma luta entre ele e outra pessoa, de modo a poder observar confortavelmente os dois se destruindo.

No caso da interpassividade, ao contrário, sou passivo através do Outro. Concedo ao Outro o aspecto passivo (gozar) de minha experiência, enquanto posso continuar ativamente empenhado (...posso tomar providências financeiras relativas à fortuna do falecido enquanto as carpideiras pranteiam por mim). Isso nos leva à noção de falsa atividade : as pessoas não agem somente para mudar alguma coisa, elas podem também agir para impedir que alguma coisa aconteça, de modo que nada venha a mudar.
(...) Mesmo em grande parte da política progressista de hoje, o perigo não é a passividade, mas a pseudoatividade, a ânsia de ser ativo e participar. As pessoas intervêm o tempo todo, tentando "fazer alguma coisa", acadêmicos participam de debates sem sentido; a coisa realmente difícil é dar um passo atrás e retirar-se daquilo. Os que estão no poder muitas vezes preferem até uma participação crítica em vez do silêncio - só para nos envolver num diálogo, para se assegurar de que nossa passividade ameaçadora seja rompida. Contra esse modo interpassivo, em que somos ativos o tempo todo para assegurar que nada mudará realmente, o primeiro passo verdadeiramente decisivo é retirar-se para a passividade e recusar-se a participar. Esse primeiro passo limpa o terreno para uma atividade verdadeira, para um ato que mudará efetivamente as coordenadas da cena.

(...)Quando eu acredito através de outrem, ou tenho minhas crenças externalizadas no ritual que sigo mecanicamente, quando rio por meio de risada enlatada, ou faço o trabalho de luto através de carpideiras, estou realizando uma tarefa que diz respeito a meus sentimentos e crenças íntimos sem realmente mobilizar esses estados íntimos. (...) Ainda sim, seria errado qualificar meu ato de hipócrita, já que de outra maneira eu sinto isso: (...) eu rio "sinceramente" através da risada enlatada (a prova é o fato de que me sinto efetivamente aliviado).
O que isso significa é que as emoções que enceno através da máscara (a falsa persona) que adoto podem, de uma forma estranha, ser mais autênticas e verdadeiras do que admito sentir em meu foro íntimo. Quando construo uma falsa imagem de mim que me representa numa comunidade virtual de que participo (em jogos sexuais, por exemplo, um homem tímido muitas vezes adota na tela a persona de uma mulher promíscua e atraente), as emoções que sinto e finjo como parte de meu personagem não são simplesmente falsas: embora (o que considero como) meu verdadeiro eu não as sinta, elas são contudo verdadeiras em certo sentido. Suponhamos que, no fundo, eu seja um pervertidosádico que sonha em surrar outros homens e estuprar mulheres; como em minha interação com outras pessoas na vida real não me é permitido expressar esse verdadeiro eu, adoto uma persona mais humilde e polida. Neste caso, não se segue que meu verdadeiro eu está muito mais próximo do que adoto como um personagem fictício na tela e o eu de minhas interações na vida real é uma máscara? Paradoxalmente, é o próprio fato de eu estar ciente de que, no ciberespaço, eu me movo dentro de uma ficção que me permite expresar ali o meu verdadeiro eu - é isso, entre outras coisas, que Lacan tem em mente quando afirma que a "verdade tem a estrutura de ficção".
(...) O hiato entre minha identida psicológica direta e minha identidade simbólica ( a máscara ou título simbólico que uso, definindo o que sou para e dentro do grande Outro) é o que Lacan chama de "castração simbólica", (...) a castração que ocorre pelo próprio fato de eu ser apanhado na ordem simbólica, assumindo uma máscara ou título simbólico. A castração é o hiato entre o que sou imediatamente e o título simbólico que me confere certo status e autoridade. (...) a identidade simbólica conferida a nós é o resultado do modo como a ideologia dominante nos "interpela" - como ciddãos, democratas, cristãos. A histeria emerge quando um sujeito começa a questionar ou sentir desconforto em sua identidade simbólica: "Você me diz que sou amado - o que há em mim que me torna seu amado? O que vê em mim que o leva a me desejar desse modo?".
A realidade virtual simplesmente generaliza esse procedimentode oferecer um produto despojado de sua substância: fornece a própria realidade despojada de sua substância, do núcleo duro resistente do real - do mesmo modo como um café descafeinado tem cheiro e gosto de café real sem ser a coisa verdadeira, a realidade virtual é experimentada como realidade sem o ser. Tudo é permitido, você pode desfrutar tudo - com a condição de que tudo seja privado da substância que o torna perigoso.
(...) "Precisamente quando pareço expresar meu desejo mais íntimo e autêntico, o que eu quero já me foi imposto pela ordem patriarcal que me diz o que desejar, de modo que a primeira condição de minha libertação é que eu rompa o cículo vicioso de meu desejo alienado e aprenda a formular meu desejo de maneira autônoma".
(...) Aceitar plenamente essa incoerência de nosso desejo, aceitar plenamente que é o desejo que sabota, ele mesmo, sua própria libertação é a lição amarga de Lacan (...) não há garantia para nosso desejo no grande Outro.
(In: Como ler Lacan. Slavoj Zizek. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. p.33-52).

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Lacan & o retorno a Freud - Slavoj Zizek

Lacan iniciou o seu "retorno a Freud" com a leitura linguística de todo o edifício psicanalítico, sintetizada no que é talvez sua fórmula isolada mais conhecida: "o inconsciente está estruturado como uma linguagem". A percepção predominante do inconsciente é a de que ele é o domínio das pulsões irracionais, algo oposto ao eu consciente e racional. Para Lacan, essa noção do inconsciente pertence à Lebensphilosophie (filosofia de vida) romântica e que nada tem a ver com Freud. O inconsciente freudiano causou tamanho escândalo não por afirmar que o eu racional está subordinado ao domínio muito mais vasto dos instintos irracionais cegos, mas porque demonstrou como o próprio inconsciente obedece à sua própria gramática e lógica: o inconsciente fala e pensa. O inconsciente não é terreno esclusivo das pulsões violentas que devem ser domadas pelo eu, mas o lugar onde uma verdade traumática fala abertamente. Aí reside a versão de Lacan do moto de Freud Wo es war, soll ich werden (Onde isso estava, devo eu advir): não "O eu deveria continuar o isso", o lugar das pulsões inconscientes, mas "Eu deveria ousar me aproximar do lugar de minha verdade". O que mes espera "ali" não é uma Verdade profunda com a qual devo me identificar, mas uma verdade insuportável com a qual devo aprender a viver.
Como, então, as idéias de Lacan diferem das escolas psicanalíticas convencionais de pensamento e do próprio Freud? Com relação a outras escolas, a primeira coisa que chama a atenção é o teor filosófico da teoria de Lacan. Para ele, fundamentalmente, a psicanálise não é uma teoria e técnica de tratamento de distúrbios psíquicos, mas uma teoria e prática que põe os indivíduos diante da dimensão mais radical da existência humana. Ela não mostra a um indivíduo como ele pode se acomodar às exigências da realidade social; em vez disso, explica de que modo, antes de mais nada, algo como "realidade" se constitui. Ela não capacita simplesmente um ser humano a aceitar a verdade reprimida sobre si mesmo; ela explica como a dimensão da verdade emerge na realidade humana. Na visão de Lacan, formações patológicas como neuroses, psicoses e perversões têm a dignidade de atitudes filosóficas fundamentais em face da realidade. Quando sofre de uma neurose obsessiva, essa "doença" colore toda a minha relação com a realidade e define a estrutura global da minha personalidade. A principal crítica de Lacan a outras abordagens psicanalíticas diz respeito à sua orientação clínica: para Lacan, o objetivo do tratamento psicanalítico não é o bem-estar, a vida social bem-sucedidada ou a realização pessoal do paciente, mas levar o paciente a enfrentar as coordenadas e os impasses essenciais de seu desejo.
Com relação a Freud, a primeira coisa que chama a atenção é que a chave usada por Lacan em seu "retorno à Freud" vem de fora do campo da psicanálise: para descerrar os tesouros secretos de Freud, Lacan arregimentou uma tribo variada de teorias, da linguística de Ferdinand de Saussure à teoria matemática dos conjuntos e às filosofias de Platão, Kant, Hegel e Heidegger, passando pela antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss. Disto decorre que a maior parte dos conceitos essenciais de Lacan não tem um equivalente na própria teoria freudiana: Freud nunca menciona a tríade do imaginário, simbólico e real, nunca fala sobre "o grande Outro" como a ordem simbólica, fala de "eu", não de "sujeito". Lacan usa esses termos importados de outras disciplinas como instrumentos para fazer distinções que já estão implicitamente presentes em Freud, mesmo que ele não tivesse conhecimento delas. Por exemplo, se a psicanálise é a cura pela fala, se trata distúrbios patológicos somente com palavras, tem de se basear numa certa noção da fala. A tese de Lacan é que Freud não estava ciente da noção de fala implicada por sua própria teoria e prática, e que só podemos desenvolver essa noção se nos referirmos à linguistica saussuriana, à teoria dos atos da fala e à dialética hegeliana do reconhecimento.
O "retorno a Freud" de Lacan forneceu um novo alicerce teórico para a psicanálise, com imensas consequências também para o tratamento analítico. Controvérsia, crise e até escândalo acompanharam Lacan ao longo de toda a sua carreira. Ele não só foi obrigado a se desvincular da Associação Internacional de Psicanálise em 1963, como suas idéias provocativas incomodaram muitos pensadores progressistas, de marxistas críticos a feministas. Embora seja usualmente percebido na academia ocidental como um tipo de pós-modernista ou desconstrucionalista, Lacan escapa dos limites indicados por esses rótulos. Ao longo de toda a sua vida ele foi superando rótulos associados ao seu nome: fenomenologista, hegeliano, heideggeriano, estruturalista, pós-estruturalista; não admira, uma vez que o traço mais importante de seu ensinamento é a auto-crítica permanente.
Lacan era um leitor e intérprete voraz; para ele, a própria psicanálise é um método de leitura de textos, orais (a fala do paciente) ou escritos. Não há maneira melhor de ler Lacan, então, que praticar seu modo de leitura e ler os textos de outros com Lacan.
(...) Em suas Notas para uma definição de cultura,T.S. Eliot observa que há momentos em que a única escolha se dá entre sectarismo e descrença, momentos críticos em que a única maneira de manter uma religião viva é levar a cabo uma dissidência sectária de seu corpo principal. Por meio dessa dissidência sectária, dissociando-se do cadáver em deterioração da Associação Internacional de Psicanálise, Lacan manteve o ensinamento freudiano vivo. Cinquenta anos depois, compete a nós fazer o mesmo com Lacan (Zizek, 2010, p.9-13).

domingo, 23 de janeiro de 2011

Tua voz - Cassimiro de Abreu

A tua voz vem d´alma, fresca e pura
Como um bafo de infante adormecido:
Se cantas - dás um raio de ventura,
Se choras, tudo chora ao teu gemido!

Quando me deixas, longo tempo ainda
Ouço-te a fala, música divina,
Que sai sorrindo dessa boca linda,
Harpa mimosa que só Deus afina.

A tua voz me alegra e me embriaga:
Assim a brisa, de perfumes rica,
Sussurra nos rosais, suspira e afaga...
Passa, é verdade; mas o aroma fica!

sábado, 22 de janeiro de 2011

Soneto VII - Fagundes Varela

Ah! Quando face a face te contemplo
E me queimo na luz do teu olhar
E no mar de tu´alma afogo a minha
E escuto-te a falar.

Quando bebo no teu hálito mais puro
Que o bafejo inefável das esferas
E miro os róseos lábios que aviventam
Imortais primaveras.

Tenho medo de ti! Sim, tenho medo
Porque pressinto as garras da loucura
E me arrefeço aos gelos do ateísmo
Soberba criatura!

Oh! Eu te adoro como adoro a noite
Por alto mar sem luz, sem claridade
Entre as refegas do tufão bravio
Vingando a imensidade!

Como adoro as florestas primitivas
Que aos céus levantam perenais folhagens
Onde se embalam nos coqueiros presas
As redes dos selvagens!

Como adoro os desertos e as tormentas
O mistério do abismo e a paz dos ermos
E a poeira dos mundos que prateia
A abóbada sem termos!

Como tudo que é vasto, eterno e belo
Tudo o que traz de Deus o nome escrito!
Como a vida sem fim que além me espera
No seio do infinito!


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Poema da amante - Adalgisa Nery

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam
Em todas as sombras que choram
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida
Em todos os caminhos do medo
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas
Desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira lágrima.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o Universo cair sobre mim
Suavemente.

Lou Andreas Salomé

"Somente aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o passar do tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser entendido como uma força vital".